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Um ano após inauguração, transposição do Rio São Francisco beneficia 1 milhão de pessoas




A chegada da água por meio da transposição do Rio São Francisco beneficia um milhão de pessoas depois de um ano da inauguração da obra. O açude Boqueirão recebeu o abastecimento em abril do ano passado, quando registrava apenas 2,9% de capacidade, o menor volume desde a abertura da represa, em 1957, quando Juscelino Kubitschek era presidente. 

“Cheirava horrível, tinha mau gosto”, lembra a pensionista Teresinha Peres, 77, que tinha acesso à água duas vezes por semana. Hoje, Peres elogia a pressão forte e o sabor doce da água. O balde anteriormente usado para acumular água, agora, guarda as bonecas da neta. Depois da transposição, a pensionista tem acesso a água todos os dias. 

Inaugurado em abril de 2017, a água levou 38 dias para encher os 110 quilômetros de leito seco do rio Paraíba entre o açude e o final do canal da transposição do Eixo Leste. Em agosto, a capacidade do açude Boqueirão saiu do volume morto (8,2%) e encerrou 33 meses de racionamento em Campina Grande. Atualmente, 15,8% da comporta é ocupada.

Sem plano B, Ronaldo Meneses, gerente regional da Companhia de Água e Esgotos da Paraíba (Cagepa), classificou como “impossível” o abastecimento de Campina Grande por meio de carro-pipa. “A transposição chegou no momento do quase colapso”. Segundo o Ministério da Integração Nacional, a terceira maior cidade do semiárido com 410 mil habitantes recebe água normalmente, além de outros 32 municípios da Paraíba e Pernambuco.

Lacunas
Entretanto, algumas cidades ainda não são beneficiadas. Apesar da proximidade, o município de Puxinanã, a 16km de Campina Grande, está fora do alcance do abastecimento. A falta de encanamento ou a localização fora do alcance do Boqueirão são os motivos pelos quais comunidades não são atendidas. Puxinanã não receberá água do São Francisco. O município integrará a barragem de Camará. 

A expectativa é de conclusão do Eixo Norte. Previsto para inauguração há seis anos atrás, a nova data limite para entrega é próximo semestre. Quando finalizada, a obra trará o recurso hídrico ao Estado do Ceará, além de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. No total, o Projeto de Integração do São Francisco (Pisf) deve custar R$ 9,6 bilhões aos cofres público, o dobro do estimado inicialmente durante o governo do ex-presidente Lula. 

Área rural 
O impacto tem sido menor no campo. Os agricultores têm restrição na irrigação a 0,5 hectare, o equivalente a meio campo de futebol. O controle ocorre devido à prioridade de abastecimento à área urbana e, devido à baixa vazão, a obtenção de água no São Francisco está abaixo da cota máxima. 

De acordo com levantamento realizado em novembro pela Agência Nacional de Águas (ANA), de 500 hectares permitidos atualmente para irrigação, apenas 340 são irrigados pela transposição no estado da Paraíba. 

Apesar da área reduzida, muitas pessoas estão satisfeitas com a água doce do São Francisco, que ocupou a função dos poços salobros. O produtor de pimentão Jair Macedo, 45, de Barra de São Miguel, na Paraíba, colhia metade das 500 caixas de pimentão que produz atualmente, quando utilizava o sistema de gotejamento. "A fruta é muito melhor, quase não tem desperdício". 

Segundo o agricultor, a renda gerada é suficiente para sustentar mulher e o filho único. Durante a colheita, Macedo emprega dez pessoas, com diária de R$ 50 cada. O produto levado é vendido e chega ao destino final por meio de um caminhão. Contudo, poucos produtores são beneficiados. O acesso é inviabilizado devido ao alto custo. São muitos os desafios logísticos para instalar uma bomba e quilômetros de mangueira. 

Salomão Medeiros, diretor do Instituto Nacional do Semiárido (Insa), avalia que, devido ao alto custo, a água do São Francisco necessita ter um destino nobre — termo que, para ele, precisa ser melhor discutido. Medeiros pontua que o abastecimento urbano, prioritário, não separa domicílios de grandes fábricas. 

"E a produção de alimentos, a sobrevivência dessas pessoas?", questiona o diretor do Insa, ligado ao Ministério da Ciência com sede em Campina Grande. "Você já ouviu falar que a água cessa para agricultura, mas você já ouviu falar que cessa para uma indústria?". Ele ressalta que o abastecimento urbano, prioritário, não separa domicílios de grandes fábricas.

O superintendente de Regulação da ANA, Rodrigo Flecha, afirma que o Eixo Leste ainda funciona em fase de pré-operacional — ou seja, os agricultores, por ora, não pagam pela água. Segundo Flecha, o impacto só poderá ser avaliado no longo prazo, com ajustes ao longo do caminho para os diversos usos. "É preciso entender o Pisf não como um projeto imediatista, mas que vai se estruturando. E, à medida que isso ocorrer, dará segurança hídrica e mudará o panorama socioeconômico do semiárido brasileiro". 








Fonte: O Povo - Folha de S. Paulo

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